
O João corria com uma ânsia de medo, misturada com pressa de cumprir o horário da entrega do livro na encadernação para que fossem douradas as capas.
Antes, aprendera a cozê-los com uma agulha grossa e um fio que mostrava estar ali para agarrar as folhas para sempre.
O seu mestre fazia o trabalho de recuperação de livros velhos, sentado numa cadeira de rodas, pela imobilidade a que estava sujeito. Era um trabalho artesanal feito com mestria e pouca desenvoltura, como as coisas com mestria pedem que se façam.
Por isso o João aprendera devagar, mesmo nas horas de pausa do mestre Aniceto, que dava as indicações enquanto almoçava aquelas sardinhas de escabeche com muito azeite e cebola.
Quantas vezes o João se questionava, quanto à frequência com que o mestre Aniceto comia sardinhas com muito azeite…
Passada a hora de almoço do mestre, o João tinha tempo então de ir num ápice, a correr a sua casa no bairro mais limítrofe da cidade, comer um prato de massa com feijão, que o esperava já colocado na mesa acompanhado da advertência materna, da necessidade de comer depressa, pois o mestre não perderia pela demora em repreendê-lo caso chegasse atrasado ao ofício…
Os catorze anos do João, permitiam-lhe digerir rapidamente a proteica refeição, desde a entrada na cidade até ao espaço intra-muros, da habitação do mestre Aniceto.
Era na velha mouraria que se situava a habitação do artesão, homem de quarenta e tal anos, que vivendo com sua mãe e irmã solteira, de idade idêntica à sua, necessitava de um aprendiz que fosse elemento reforçador de vontades e impossibilidades de toda aquela família.
O João percebia a dificuldade do mestre em mover-se para fora daquela casa de primeiro andar pela deficiência motora óbvia, que talvez por isso, o transformava por vezes numa pessoa estranha, inexpressiva por vezes e por outras com expressão a mais.
A irmã ligeiramente mais nova, muito alta e ligeiramente curvada na parte superior do corpo, debitava ondas de calor que ao João sabiam a uma comida estranha, pela proximidade a que a mulher por vezes se colocava em relação a ele.
A mãe de ambos, mulher igualmente alta, de compleição física forte, toda vestida de negro, berrava constantemente, e mandava o João à rua comprar as «mercearias» diariamente, interrompendo a labuta da cozedura dos livros.
O mestre Aniceto protestava energicamente com a mãe pelo facto, uma vez que o trabalho do João era necessário para a cozedura dos livros. Iniciava-se uma vibrante discussão entre mãe e filho, enquanto era visível a fuga da filha para uma das dependências da habitação.
O João aguardava nervosa e quotidianamente, o desfecho das discussões, de decibéis elevadíssimos que normalmente acabava com a conclusão que parecia ser de aceitação unânime:
-Então o gaiato não é nosso criado?? Posso mandá-lo onde eu quiser e não tens nada com isso!!Esqueceste quem carrega com essa carga de ossos todos os dias para a cama??
Vá!...vai lá à mercearia e traz ¼ de feijão encarnado, 250gr de manteiga e meio litro de azeite!! E não te demores que tens que trabalhar ouviste??
O João trazia as comedorias encomendadas, que ficavam registadas no livro comprido dos «fiados» da mercearia, sentava-se de novo na sua mesa improvisada de trabalho, pegava na agulha e desatava a coser os livros com o rigor e concentração que o mestre Aniceto lhe recomendava.
Trabalhava e pensava.
Pensava nas horas a que iria poder sair dali, pois havia retomado a Escola tal como fora a promessa do pai, que dissera que, logo que fizesse os 14 anos, iria estudar à noite e isso alegrava-o.
Tinha sido um choque a sua retirada da escola aos 12 anos.
Todos os dias as aulas começariam às 7 horas da noite e trabalhar depressa era o seu objectivo.
Pensava ainda, que havia que fazer face aos encargos da casa, ordenara o pai, perante o olhar lacrimejante e silencioso da mãe, que gostaria de ver os filhos prosseguir os estudos regulares.
Todos não seriam demais para pôr a vida da família, de mãe doméstica, pai operário e três filhos, em equilíbrio embora precário.
Eram os 5$00 diários, que multiplicados pelos 6 dias da semana, levavam o pai do rapaz semanalmente, à mouraria, para agradecer o grande favor ao mestre Aniceto de manter o seu filho naquele digno ofício e receber a semanada pelo trabalho do João.
-João !...Vais levar estes livros para dourar as capas ao Sr. José Miguel e não te demores porque são quase 7 horas e ele deve estar a fechar…e depois podes ir para casa…
O Sr. José Miguel tinha a arte de dourar os livros depois de encadernados. Vivia na extremidade norte da cidade, que distava da mouraria mais de meia hora de caminho. O João teria que correr e muito, para chegar a casa depois de deixar os livros a dourar. Não estaria a jantar antes das 8 horas da noite, perderia uma ou duas aulas e muitas vezes não jantava porque, não queria deixar de estudar assim…
Em silêncio… porque se vivia assim no tempo em que era aprendiz de encadernador, o João passava todos os dias pela Igreja que ficava à esquerda do seu percurso para a Escola.
Por vezes pensava entrar e sem abrandar o passo, sorria quando se imaginava a entrar e a pedir algo para si…
Mas o João tinha muita dificuldade em dar nome às emoções que sentia, porque achava ele, que os deuses se zangam muito uns com os outros e que muitos adultos lhes eram devotos, mesmo em silêncio…