É suposto nunca se pensar que alguma vez a dinâmica da vida posso sofrer interrupções.
Atrevo-me sem saber bem porquê a pensar que estão a acontecer períodos demasiado longos dessa inércia, que inibe a azáfama das pessoas. O buliço que as ocupa, as constrange até, perante dificuldades, alegrias ou anseios.
Há uma espécie de regresso ao ócio, tão fértil para os Gregos da Antiguidade, sem que hoje, todavia, nada haja para contemplar.
Fortalece-se até institucionalmente a prática do sedentarismo. A harmonia começa a quebrar-se.
Falo de harmonia em que a própria guerra é elemento integrante.
Hoje não há guerras pois nem aí o homem se atreve a revelar-se. Esconde-se e utilizando o radicalismo funcionalista da governação, aplica majorações como se dependêssemos todos da materialização dos nossos sentidos.
Em Portugal, país sempre adiado, tudo está por decidir e talvez esse seja o nosso desígnio, até ao Império que dizem ser o Quinto e que os nossos poetas e filósofos mais consagrados remeteram para o nosso imaginário.
Se assim for, não quero uma parte desse mistério depois de resolvido e quero que ele se condense cada vez mais. Se perpetue na vida de todos nós, fazendo disso o nosso devir.
Quero acreditar, que acreditaremos, que seja essa a razão do aparente e nostálgico torpor em que vivemos,homens e mulheres do nosso tempo, na nossa terra, no nosso país.
Porque não o Dia Mundial da Feitura de Palavras Por Cada Um de Nós?
Depois de semi-instituída a nova semi-ordem política, económica e social em Portugal, com o 25 de Abril de 1974 possível, o Ensino, que devia ter uma grande responsabilidade na institucionalização da escrita/leitura , na capacidade de se ser criativo e interventivo, preferiu conduzir o processo de ensino/aprendizagem para uma unificação que previsse a justiça social e igualdade de oportunidades.
Essa unificação, passava a justificar-se pela necessidade de todos os alunos terem acesso ao grau de engenheiros ou doutores.
Em contrapartida, essa unificação passou a instruir alunos do Baixo Barroso em Trás-os-Montes, tal como alunos das Courelas da Touguia no Baixo Alentejo, sobre a revolução de 1383/85, como se de pesca de truta em riachos se tratasse no caso dos primeiros; ou de carrego de fardos de palha para cima de uma camioneta no caso dos segundos, indiferenciando saberes, sentires e quereres.
Para se atenuar o erro, pelos corredores do Ministério da Educação entre doutoras de carreira da Linha, surgiu a douta necessidade do proteccionismo dos «meninos».
Hoje temos (esmagadoramente) pais, filhos da semi-revolução, que não sabem como instruir os seus filhos na prática da leitura, tão pouco percebendo os seus benefícios.
Passou então a ser quase proibida a utilização de manuais escolares nas salas de aula. Primeiro pela alergia que o mesmo provocava a alunos unificados no dever de aprender, tudo com o argumento pedagógico/didáctico de que o mesmo livro retiraria ao aluno capacidade criativa. Paradoxos da unificação.
Inverteu-se assim o sentido da utilidade do livro escolar, alegando-se até que seria mau professor aquele que fizesse uma utilização excessiva do mesmo junto dos seus alunos.
Passaram a ser mal educados os alunos e a serem desprestigiados os professores.
Hoje o lobby da Leitura, surge avassalador, demolidor, ultrapassado que está, o período em que se deveria terinstruído, através da Escola a vontade de criar palavras, debatê-las, escreve-las sempre que se sentisse necessidade disso.
Não se educou a liberdade de pensar, reflectir, escrever numa folha branca e imaculada, apenas porque o instrumento fundamental para esse efeito fora relegado para segundo plano. O pensamento livre e isento.
Hoje sobra o Ler que se quer instituir. Todavia, continua a não se ensinar a intervir através dessa leitura e exibem-se propostas de livros escritos pelos outros.
A Maria fez anos e fomos comemorá-los onde ela estava no domingo de Páscoa.
O odor a estevas enche-nos os pulmões, no percurso deserto de gente, em que a estrada pela sua sinuosidade deslumbra pela solidão, desconforto e desejo de chegar.
E o mistério mantém-se em Barrancos: O do nascimento, o da morte, o da estranheza que se entranha e deixa de ser estranha, porque o remédio está na própria natureza que nos possui e domina seja qual for a hora de chegada e de partida à vida.
Beija-se a criança, e as mulheres que enobreçam o acto de reforçar os laços de legitimidade conceptual, entretendo e forçando a menina a pronunciar palavras novas, embriagam estridentemente os dois anos da Maria, coitada…
Aproveitando a porta escancarada, deixo o frenesim da contemplação da Maria, por entre salas de uma casa onde impera o chão de xisto e o fresco que as paredes de taipa ainda não deixaram aquecer, apesar do magnífico sol vindo do fundo de um corredor contíguo a um quintal soalheiro e de matanças.
Refugio-me na Sociedade na procura da solidariedade masculina
Nem parece, mas no interior, os diálogos ensurdecedores, sobrepostos e até gritados, dos parentes que se misturam com outros parentes diante de pires de torresmos ou catalão e de vinho branco barato, faz esquecer o esgar de troça que fazemos deste mesmo vinho, na cidade grande, na escolha do melhor néctar.
Tento conversar com os primeiro parentes que me aparecem, que por sua vez me apresentam aos outros parentes, mas a concertina que acompanha uma espécie de zarzuela, de intenção lítrico/ dramática, destrói as minhas intenções.
A mesa é enorme e todos se acomodam em cadeiras de fundo de buinho e traves de madeira com motivos florais pintados em fundo azul. O tabuleiro do borrego crepita ou não viesse directamente do forno da padaria.
Aos homens são servidas as cabeças dos animais por ser de arte e engenho descobrir entre os contornos ósseos vestígios de carne e gelatina a ela associada. Dos miolos diz-se que fazem bem às crianças, o que é saudavelmente negado pelos pais da festejada Maria.
Chegou o momento do bolo, do apagar das velas da Maria, da entrada de outras crianças e respectivos pais. Beijos por todo o lado e Olás cheios de sorrisos contagiantes. Reconheci umas pessoas outras nem por isso, mas também ninguém estava preocupado com isso. Cantaram-se os parabéns.
A Maria parece estar a ficar habituada, apesar da recente lida da vida que os dois aninhos lhe proporcionam.
A Maria brilhou. Os pais estão felizes. Os avós também. A tia/madrinha contagiou a afilhada e vice versa.
Iniciaram-se as despedidas. Havia gente de muito longe. O Domingo de Páscoa chegava ao fim. Nós regressaríamos também.
Barrancos ficava lá, num altinho espreitando Encinasola, aguardando a ocupação de 34 lotes prontinhos a serem cedidos a quem os queira utilizar para dar inicio ao parque industrial que tem tanto para tirar à terra….
A mãe da Maria ligou hoje, porque a Maria tinha aprendido palavras novas no domingo de Páscoa em Barrancos, que procura ter um parque industrial: