Sem ser por querer e tender Os braços baixam e suspiram O corpo relança-se na procura Do espaço que os braços deixaram A alma esconde-se e insinua Baralha, suplica e resiste Apela à memória da loucura E o corpo enfraquece, persiste Surge a voz que se sente crua Clama por gente e ventura Sente por tudo o que queria Com palavras sem eco Ternura
As brincadeiras mediam-se pela rijeza, destreza, alguma astúcia e pé ligeiro. A substância das coisas estava na facilidade com que se entendia imediatamente o que podia ser perdoado e aquilo que não tinha perdão. Não existia, como hoje, a já famosa e atenuante interjeição do RAP: «Ah e tal!... E mais não sei quê…». Era quase sempre clandestina a luta por tudo aquilo que não tinha perdão e franca a atitude de usufruto da liberdade disponível.
Daqui, extraio a esta distância, duas lições. Parti o pião do Vicente e lembro-me de que ele só não se abraçou a mim de satisfeito com o meu acto de heroicidade, porque nesse tempo recebíamos duras lições de masculinidade. A segunda e a mais importante tem a ver precisamente com a alegria do Vicente, que hoje poderá ser entendida «transversalmente» assim: O Vicente ou era atrasadinho, ou tinha pais disfuncionais, ou problemas sócio-económicos, daí o seu fraco aproveitamento escolar, não estando atento nas aulas, sendo preguiçoso, pouco participativo, sem pré-requisitos, hábitos de estudo, falta de motivação, etc, etc. Sim, porque isto de ficar a rir de cumplicidade, com quem lhe partiu o pião, é no mínimo revelador de dificuldades afectivo/cognitivas/comportamentais
Lembro-me perfeitamente do Vicente. Era um estratega fantástico na distribuição dos cowboys, quando nos metia por atalhos na perseguição dos índios, nas nossas brincadeiras pelo bairro de terra batida. No futebol sabia cruzar como nenhum. E eu que o diga que cabeceava com êxito, muitas vezes para a baliza, recebendo a bola milimetricamente dos seus pés.
Mesmo quando rezava por imposição, na escola dos padres que nos educavam, onde devoção só tínhamos a que nos deixavam ter, fazia-o sempre com o zelo que o acontecimento exigia, sabendo nós, que era ele que na sacristia comia as hóstias e bebia o vinho do padre Ernesto.
Sabia a tabuada de cor e explicava-nos enquanto jogávamos ao prego, que a aprendia enquanto plantava alfaces na horta com o avô, subtraindo as que colhia ao fim do dia, para acompanhar o guisado de favas que a mãe cozinhava.
Ainda a tarde era tarde, regressávamos da escola e ele atirava o bibe e a mala para o poial da porta e corria para o rossio a caminho da jogatana, enquanto os perus que por ali espenicavam, com ele gorjeavam, emitindo sons que recordo serem contagiantes de alegria.
Nem sei porque estou a dizer isto…mas foi a forma mais encorajadora que encontrei de retomar o meu espaço de meditação.
Nos primórdios da nossa existência…-eu disse primórdios?...- Que seja.
Quando o homem era ainda uma sub-espécie daquilo que é hoje..-eu disse sub-espécie do que é hoje?...Que seja…
Quando as estações do ano era ainda miragem de Galileu, por tão pouco se dar importância a calendarizações, antes a outras devoções -ah….aqui vou deixar ficar «por tão pouco se dar importância a calendarizações».
Nesse tempo, dizia eu…os glaciares quase nos fariam escorregar, assim que chegássemos ali a Badajoz, hirtos e domesticados como já estaríamos.
Hoje, entre devoções cada vez mais introspectivas, criadoras de universos transcendentais que sabemos que podem reunir-se connosco a cada momento e a cada momento separarem-se de nós, por nossa iniciativa…reflectimos sobre as causas das nossas diferenças de humor.
No Outono do nosso encantamento, embrião de carência de serotonina para outros, vai-se a luxúria das noites de verão, desnudadas de orações, completam-se os ciclos que Darwin previu até à queda da folha e inicia-se a via sacra da reposição da fé na obra de um qualquer deus.
Atenua-se a febre com a suave variação térmica Outonal, com a face virada para o vento sudoeste; anuncia-se a chuva refrescante pela dança das folhas caducas que resistem amarelas a um caule aparentemente seco; olha-se para o norte azul e para o sul cor de pérola a antecipar o fim de tarde alaranjado e ameno; avistam-se ao longe as queimadas que nos trazem o incenso da naturezanão pecadora; revolvem-se as terras que húmidas agradecem a renovação do pousio a que o verão insistente obrigou.
Afinal os deuses não estiveram longe. Andaram por perto e também se renovaram.
Não quis reiniciar este espaço onde me encosto, sem que seja feita justiça à prodigiosa natureza.
A Seara teve cachorros, que só não nasceram na Serra da Estrela, porque ela adoptou o Alentejo como lugar de transumância final.
Aqui encontrou donos zelosos, mimos constantes.
Daqui pôs em debandada desde que cá chegou ( e já lá vão 6 anos), ratinhos faroleiros nervosos na procura de um grão da sua ração, rãs que no ribeiro coaxavam, toupeiras que lavravam a terra em vão, coelhos que visitavam a quinta sem perdão, na procura das raízes das arvores jovens…e como ela as protege…impedindo o Mouro de as regar com a sua enérgica micção territorial. Nem a tartaruga que por vezes nos espreita e que um dia nos visitou, ela impediu de pernoitarnuma noite de lua cheia, ali junto ao muro que protege o marmeleiro.
Ela, a Seara, teve cachorrinhos que vão para os Açores quando ela entender que são autónomos.
Vão para os Açores porque a Lena, a Susana e o Pedro são Açorianos e foram testemunhas do olhar da Seara que os viu partir em direcção ao Oceano.
Um enorme abraço para a Susana e para a Lena que ajudaram a crescer todos os seres desta Quinta.