sexta-feira, 18 de julho de 2008

SERÁ MALANDRIM?


Dou comigo a pensar que neste momento não tenho nada em que pensar, ou seja, até tinha, mas acho que seria um desperdício. Eu explico:
Coloco-me perante a possibilidade de pensar ou fazer algo que ajude a fazê-lo, mas a necessidade de ser útil enquanto penso, desvanece-se de imediato. Porquê não sei, só sei que se desvanece como se expira. Expira-se com prazer por se sentir que o ar mau nos deixa ficar com o ar renovado que entretanto inspirámos.
E tem sido assim em momentos de maior tédio. Inspiro e expiro, inspiro e expiro…nada de mais agradável me soa no momento. Quanto ao ser útil no acto de pensar, sempre me senti útil e disponível, como tal, pensar para ser útil é uma desnecessidade.
Assim, respirar bem, parece-me ser a coisa mais agradável (reparem que não disse útil) neste momento, sobretudo quando vejo tanta gente a respirar mal e a precisar tanto de ajuda.
A essas pessoas digo: Respirem bem e aprenderão a ser úteis.

domingo, 8 de junho de 2008

MESMO ASSIM CRER...


A flor que em si forte se insinua
Cheia assim , de ventre e nudez
Espera que de si, essencialmente nua
Se tome a razão, porque assim se fez

Tomara-se até completa de ironia
Inocentemente, assim se desejara,
Por sentir que alguém a quereria
Linda, universal, exclusiva e rara

A vida trouxera-lhe azedume, algum ardor
Canções de acreditar, que não de sonho
Desvaneceu-se em si a ideia do amor

Mas pensa: Existe em mim ainda, o sofrer,
Ironias do ventre, que transporta o sonho,
De um filho por fazer, mesmo de dor, por crer

quarta-feira, 28 de maio de 2008

O MAIO DA NOSSA PRAÇA


Que a nossa Praça se transforme.

Faça-se uma fogueira no centro dela e cante-se uma canção, que possa ser o hino da naturalidade das coisas, em que vivem pessoas.

E não das coisas em que transformam as pessoas.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

JÁ NÃO HÁ CADAFALSOS


Nos Estaus o rei pernoitara, depois de um dia em Cortes com os homens bons da cidade.
Muito queixume ouvira D. João II, e ainda teria que mandar matar um Duque.

Já na Praça Grande um majestoso engenho se erguia, sobre um palco que seria bem visível desde a rua Ancha até à dos Mercadores.

Panos pretos envolviam toda aquela arquitectura efémera, que haveria de ficar para a história, como a que servira de cenário aos que conspiraram contra o rei.

Viera o Duque do norte, acreditando que seria convidado para o casamento da filha de D. João II. Esperava-o a morte, não com baraço, mas sim à moda francesa.

Mouros e judeus foram os primeiros a posicionar-se na Praça. O Rei tardaria.

Finalmente, enorme algazarra vinha agora da Alcárcova e prostrado o Duque, trazia de lá, no rosto, o sinal do arrependimento, que apenas a confissão do padre ouvira.

O Rei e o seu séquito ocupam os seus lugares na sacada dos Paços do Concelho, enquanto o algoz aguarda de capuz preto já enfiado na cabeça, a sua tarefa que consistiria em posicionar a nobre cabeça do Duque, no espaço onde o enorme cutelo cairia em estreia.

A multidão que circundava a Praça Grande silenciou-se quando o Duque iniciou a subida dos degraus do enorme palco, que ao centro exibia um robusto cadafalso.

Diz-se que o Duque rejeitou a última oração e que apenas olhara fixamente o Rei durante largos segundos, antes de aceder sem oposição às orientações do algoz.
Debruçou-se então sem esforço, já de joelhos, sobre o cepo de madeira contornado à medida do seu pescoço e aguardou.

O Rei que levantara a mão lentamente, mais depressa a fez cair em sinal de ordem ao algoz, para que este desengatasse a lâmina reluzente. Esta deslizou com um silvo que parece ter deixado eco em toda a praça, enquanto a cabeça do Duque se separava do corpo, que por momentos não permaneceu inerte.

O som abafado, escapatório, do povo e de alguns burgueses, que quase coincidiu com o golpe, mais pareceu de dor, atenuada com o rápido recolhimento do Rei para o interior dos Paços do Concelho. Sucederam-se os murmúrios…

O cortejo fúnebre até ao Convento de S. Domingos, muito acompanhado, pressagiou o esquecimento.
O Rei, momentos antes estivera presente, mas estivera nu.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

AINDA ASSIM....


No limiar da aventura das coisas, desventurado,
Sem nexo das formas, que se afirmam sempre assim,
Caminha para as coisas, que vive mal amado
Desconhecendo o destino e dizendo sempre sim…

Não se sabe se são gestos insinuados ou de feição,
Os verdadeiros, ou de sentimentos a si unidos,
Os contrários aos movimentos, podres de intenção
Os que fazem acreditar nos mitos não destruídos

Alentejo de medo, de fé, ou adormecimento
Aprendidos por fluxos de hábitos e outros ventos
Tradições que reduziram o seu empenhamento
Pela força das temeridades, trazidos pelos tempos

sexta-feira, 2 de maio de 2008

SABEDORIA ANTECIPADA


Lembro-me do meu pai dizer que devia cumprimentar as pessoas todas.
Eu hoje vejo poucas pessoas a cumprimentarem-se na minha terra, mas se calhar é por se conhecerem mal.
O meu pai tinha uma admiração muito grande pelos Americanos e pelos Russos e recordo-me de engrandecer quer uns, quer outros e eu empolgava-me a ouvir aquilo.
Hoje ponho-me a pensar nisto e esboço um sorriso fugaz. Depressa me emendo pensando no que isso quereria dizer.
Mas como ele me dizia que eu e os meus irmãos devíamos falar às pessoas todas, com respeito e devoção até, como que deixando bem marcada a nossa diferença em relação às pessoas mais velhas que nós, e como tal mais sabedoras, eu achava que tudo era proporcional.
Eu estaria para as pessoas mais velhas, em desconhecimento daquilo que era o que elas sabiam do meu destino, como o meu pai estaria para os americanos e os russos, em conhecimento do que eles representariam de poder, força e grandeza para ele.
Isto levou-me um dia, sem que os meus 10 anos de existência me conferissem alguma habilidade política a perguntar ao meu pai se ele podia com a espada do D. Afonso Henriques. Confesso que não recordo a resposta que ele me deu, mas hoje sei que ele bastar-se-ia perfeitamente para uma espada daquelas.
Americanos e Russos no princípio dos anos 60 imagine-se…Não admira que ele quisesse que falássemos às pessoas todas lá do bairro, até com alguma devoção.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

A INTERVENÇÃO NA CIDADE QUE É ÉVORA


Évora é uma cidade com rosto triste insinuando a espera da luz, quando o cinzento dos dias cinzentos lhe dá o sossego que parece ter nascido com ela.
Mas Évora tem também um rosto triste, quando o sol desponta do lado que é sempre esperado sem que isso seja novidade, sem vontade de se lhe aliar para fazer dos dias, dias diferentes.
Évora tem maioritáriamente homens que pretendem inocentemente ser diferentes dos outros homens.

E estes homens, tentam exercer a política que sentem ser ao serviço da cidade e das pessoas que a habitam.

Mas os homens de Évora, que querem ser políticos ao serviço da cidade em que nasceram ou adoptaram, esmorecem encostados a uma espécie de magia que sendo magia e como tal coisa esperançosa, é ao mesmo tempo coisa desastrosa, por Évora não ser uma cidade de políticos.
Évora é conservadora, não aceita a inovação sem que ela seja obra que justifique a mudança.
A destruição do que ela de facto é, será coisa sofrida se for para ser diferente de si.
A mudança tem que ser sofrida, porque ela é bela e indestrutível e como tal intocável a partir do coração dos seus cidadãos.
A obra que se diz ter que ser feita, tem que ser feita, porque o sofrimento já começou.
Que se faça a obra porque o sofrimento já começou.