sábado, 18 de outubro de 2008

UM JORNAL À SOMBRA


O jornal da minha terra é uma delícia.
O jornal da minha terra é um jornal esforçado e persiste nesse esforço, sobretudo quando não tem notícias que mereçam relevo.
Assino-o há muitos anos, porque existe também em mim aquele conformismo típico das pessoas que se adornam de simpatia pelas coisas da terra, mesmo que sintam necessidade de comentar com algum desamor, a inoperância das coisas e a ausência de ideias.
A minha terra tem 50 000 habitantes, poucos como se vê, sobretudo para uma cidade conotada com a universalidade da cultura, mas onde o espírito gregário tem muito que se diga…. Propõe-se na minha terra, inconscientemente até, a normalidade dos comportamentos sem que tão pouco se descortine, alguma intenção menos ética ou mais moral.
O jornal da minha terra existe com esse fim também. Existe e subsiste, procurando com a ternura que o caracteriza, a substância, que consiste numa aparente resistência a todas as tendências que muito deliciosamente, se insinuem
A substância do jornal da minha terra, evidencia-se na folha da necrologia, nos anúncios domésticos, no futebol regional, em muita publicidade e num ou noutro destaque
internacional, que pode vir de Moscovo ou do Bangladesh. Todavia, mesmo por cima, ou ao lado, poderá surgir o queixume de um cidadão mais atento, que chama a atenção para as pedras da calçada arrancadas na rua da Misericórdia, ou ao ruído que os jovens universitários eventualmente provoquem depois da meia-noite.
Ali surge por inércia em relação à mudança dos tempos e forte dinâmica quanto à idiossincrasia de um povo que assim o aceita, tudo o que um jornal não deve ser, pelo que representa de inutilidade, num espaço de cultura como é a minha cidade.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

ISABELINHA?..NÃO SEI QUEM É...


E o menino sentava-se no poial da esquina, que enviesava as ruas na sua direcção.
Esperava que os outros meninos chegassem junto de si, antes que passasse a Isabelinha da trança, vinda de uma dessas ruas.
O menino caprichava sempre que saía da escola, de modo a ser o primeiro a ocupar o lugar dos seus sonhos, pois sabia que a menina passava a caminho da última compra da tarde. Seria um ramo de salsa ou mesmo de hortelã do lugar de hortaliças, ou mesmo meia garrafa de azeite da mercearia do Sr. Cesário.
O menino acreditava que o poial que estrategicamente se posicionava na esquina das ruas que a Isabelinha percorreria, o ilibariam de qualquer intenção que não fosse esperar pelos amigos de brincadeira daqueles fins de tarde de início de verão. E era sempre de soslaio que olhava à sua esquerda e à sua direita, num olhar rápido e quase sempre acompanhado de um coçar de orelhas. Fazia-o sentado, porque afinal seria sentado que se deveria esperar por alguém, mesmo que dos outros meninos se tratasse.
E ali se interrogava algumas vezes sobre o esquisito que seria, alguém observá-lo naqueles gestos estranhos, tanto mais que a menina, sendo loira e bonitinha, na sua candura , era o enlevo de toda a vizinhança. Que diriam se soubessem que gostava muito da Isabelinha?
Era um alívio quando os amigos chegavam, pulando quase sempre atrás da bola que os antecedia, ate àquele lugar de encontros e de eternos desencontros. Puxavam por si e arrastavam-no para o rossio, mais parecendo cúmplices da Isabelinha e de si próprio, tal a ironia das coisas pensadas e nunca ditas.
Entre pontapés na bola e muito entusiasmo entre balizas, o menino, deitava um olhar distante, e agora directo para o espaço vazio, por onde iria passar a menina da trança. Sorria por dentro e interpretava o seu segredo, que achava doloroso de reter, mas fascinante de viver, por si e por mais ninguém, pois só ele sabia porque se sentava naquelas tardes de Maio, no poial da esquina das ruas da Isabelinha.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

À BOLINA


Estava uma tarde para poemar
Sentir as coisas no ar
Deixar de ser ao acaso,
Existir por não se saber
Ser mesmo, algo para amar,
E querer adormecer, por querer,
Assim como, ao som do mar

E pelas ondas do mar que é meu,
Navego à bolina nas emoções
Por sonhos de sons que oiço,
Que acredito serem de um deus
Que tece preces ao vento, no breu,
Que me empurra e me trespassa
Fazendo-me infinitamente seu


Neste torpe acordar, assim,
Entre o norte e sul me debato,
A bolina sem leme me tragou,
Sou um homem afinal, de papel,
Tu continuas no limbo de jasmim
Onde naveguei em mim, e afinal,
Afinal existo, afinal sou assim

domingo, 5 de outubro de 2008

O PROGRESSO

Reservo este espaço a quem o queira utilizar.
Se ninguém conseguir escrever nada nele, é porque algo de estranho se passa com as novas tecnologias.












sexta-feira, 26 de setembro de 2008

O PRÍNCIPE MENDIGO


Era uma vez um príncipe…
Vivia num reino que sabia que não seria seu, por isso pensava que um dia seria feliz junto de uma camponesa, entre campos floridos, numa casa de madeira a cheirar a coisas da terra.
Um dia foi à cidade e como era belo e gentil, deixou-se cortejar por uma plebeia .
Assim, o belo príncipe deixou que a plebeia o acariciasse e porque era gentil como são todos os príncipes, casou com ela.
Tiveram filhos e o príncipe ficou esquecido no berço da nobreza, por ter casado com uma mulher da populaça.
Ficou só, com a mulher que um dia o acariciara porque era príncipe e belo, mas que nunca o reconheceria como gentil.
O reino definhou, o príncipe fugiu para parte incerta e ainda hoje, escondido algures, espera que nenhuma plebeia o encontre mais, por sentir que não quereria ser acariciado por uma mulher que não acredita que existem príncipes gentis.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

SÍMBOLOS


O Mouro não se esquiva a lamber a primeira pedra que lhe apareça pela frente.
Ei-lo esguio, elegante e sabedor das manhas da sua amiga Lena, que matreiramente o caçou nesta sua necessidade básica.
Não seria ali que ele deveria beber a sua água, mesmo que os 40 graus à sombra obriguem a pouca reflexão. Todavia, aquele lago que já teve um metro e meio de altura, foi todo partido para que agora, apenas com cinquenta centímetros, ele possa transgredir as regras da Quinta à vontade.
É amante da Seara, cadela de poucas falas e muito tino e por isso mesmo o adopto como símbolo universal da indiferença perante os bebedouros públicos.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

SER POETA ÚNICO E INTEMPORAL


Comparar poetas, enfim, que extravagâncias
Quando tantas palavras escritas e que fantasiam
Nos fazem crer em todas, até nas que extasiam
Em sublimes recantos de estranhas fragrâncias

Pessoas, que nos fazem assim acreditar,
Que ditam palavras onde se sente coração
Que embriagam e levam até à emoção
Sem nomes, exultantes no acto de meditar

Assim, num apelo reverso da alma contida
O poeta desperta na primeira palavra o clamor
Reflexo mesmo da tristeza, ou pungente amor
Chorando-a depois, por diante de si, e da sua vida