Vivemos num espaço com arvores, a nascente um ribeiro cuja água se transporta sem que as margens a oprimam; a passarada de muitas espécies coabita connosco; a sazonalidade das andorinhas sob os beirais é anunciadora de bonança e nem é precisocata-vento para se perceber a proveniência dos cheiros dos ares que nos visitam.
Este é um espaço de ervas verdes que insistem em vegetar em cada torrão mais teimoso, quando arroteio a terra barrenta com a minha gafanhota (moto-cultivadora). Elas deixam-se vergar perante o peso do ferro e quase me fazem crer na sua intemporalidade. Como eu sei que apenas nos visitámos, depois das borrascas de uma invernia que alagou e me separou longamente do seu destino.
Recolho a máquina enquanto com um sorriso periférico e contemplativo observo o castanho viçoso e luzidio onde a lâmina cortou, quando sei que contribui para o forte cromatismo que reforça mais ainda o verde e o laranja do sublime fruto da época.
Eu sei que em poucos dias mais, regressarei ao duelo que as minhas ervas aceitarão porque lhes dou tempo, pouco embora, para que em brincadeiras de primavera as formigas, os rouxinóis, as rolas, os melros, quiçá uma tartaruga ou um ouriço, possam em jogos de amor, acasalar, roçando-se nelas, expostas que estarão de novo sobre o castanho da terra com cheiro a cio.
São as escolhas que a natureza impõe.
Como sei que as cobras regressarão da sua hiberne estadia por entre pedras que envolvem o poço rodeado de rosas e precisarão de pasto porque o verão não tarda.
Como lá num canto da quinta onde as toupeiras escolheram o seu abrigo em forma de túnel, junto das figueiras de sombra e de húmus persistente, aparecerão pegadas da Seara que esgravatará socalcos de que duvida no espaço da sua vigilância. Sobreviverão?
Não adormecer sem inspirar um pouco do ar fresco e sedoso de um dia passado entre confianças e desconfianças recíprocas, entre espécies com o mesmo instinto, pensando eu em alguém que se sente omnipresente.
Não gosto de ver a senhora Fátima Campos Ferreira na televisão, a dirigir aquele programa chamado «Prós e Contras». Gosto de ver o programa porque os intervenientes por vezes, compensam a dificuldade da senhora, quando esta pretende dar alguma inteligibilidade aos temas.
O último debate versava sobre o casamento homossexual.
Na qualidade de não homofóbico, dispus-me a assistir, para tentar perceber se o meu casamento era fruto de uma tradição secular, disposto a dar-me coerência e credibilidade social, ou se, por força da necessidade de se equiparar o casamento (enquanto instituição criada e destinada a unir homens e mulheres) passaria a ser sem alterações jurídicas, instrumento de união oficial de casais homossexuais, equiparados aos casais heterossexuais.
Valeu uma vez mais a inteligência e bom senso de todos os protagonistas defensores do SIM e do NÃO, para salvar o programa que a senhora Fátima normalmente vicia e estrangula.
Ficou claro para os defensores do NÃO, que o casamento (enquanto instituição secular criada para unir homens e mulheres) é e deverá continuar a serdestinado a esse fim. Ficou claro que os defensores do SIM, pretendem a pretexto da liberdade e igualdades sociais, usufruir da instituição casamento, tal como ela existe, para contrair casamento homossexual.
Ficou claro também que, como medida de temperança, (em que a Igreja aqui representada e esclarecida, assumiu um papel interessante) os casais homossexuais tendo sem qualquer dúvida direito à união de facto oficial entre si, o poderão e deverão fazer assumindo-se perante o Estado, desde que essa união não passe pela utilização da instituição casamento tal como existe.
Destrói-se assim o possibilidade de se subverter a natureza da casamento e o estado de direito, seja por esta razão seja por outra qualquer, porque não poderá pedir-se a um casal homossexual que procrie, perpetuando assim a espécie, como não poderá pedir-se a um casal heterossexual que assuma o casamento numa relação incestuosa.
Que a homossexualidade seja assumida pela sociedade, de pleno direito, mas que não sesubvertam as regras institucionais em que todos temos que viver em igualdade de direitos e deveres.
Quase sempre que proponho sairmos daqui, digo: Tomara já sentir o pulsar de outra gente, com outra cultura, com outra língua e com outro civismo.
Normalmente sou assessorado neste meu anseio com um sorriso de cumplicidade. E então vamos… Depois é deixar fluir, indo ao encontro daquilo que procuramos.
Um espaço nasceu na minha terra de nome INTENSIDEZ.
Espaço conquistado e valorizado pela intervenção do jovem casal e de todos os que por lá têm passado.
Passei por lá a semana passada, 6 meses após a sua abertura oficial.
Tratou-se de partilhar a apresentação do livro de poemas da Margarida Morgado, de nome Água Pródiga.
O espaço é excelente, a Margarida não se faz velha e nem sabe que estou a dizer isto. Ela estranhou a homenagem ou lá o que fosse que estivesse a acontecer e disse coisas que alguns entenderam, como coisas que ela não teria entendido.
Aconteceria poesia e a Margarida preparara-se para isso com um whisky, alheia aos 77 anos. Um orador adiantara-se entretanto, a atenuar (estupidamente) as 77 primaveras da autora, referindo cigarros que ambos teriam já fumado. Era um jovem como a maioria dos presentes e precipitou a nostalgia que a Margarida acabaria por agarrar, ficando a poesia ferida.
Foram ainda brilhantes algumas abordagens à Água Pródiga, por quem lera e estudara a poesia da autora.
Cinco senhoras quarentonas, recentemente licenciadas, cedo se posicionaram em mesas perto da Margarida, diante de um bule de chá, como que anunciando que, o facto de serem simultaneamente recem-divorciadas, não seria razão para se meterem nos copos diante da autora que as surpreende com o Cutty Sark, 8 anos. Tarde demais…
Eram brancos os bules e o ar das senhoras sério e circunspecto, iniciando o circulo que as mesas começariam a formar em jeito oval com a Margarida a um dos topos por imposição, sabe-se lá de quem…
Mas havia muita gente gira.
Depois aconteceu Margarida Morgado:
"dentro de mim há um sem palavra impossível de nomear nele desaguam os rios sem leito onde bebem bichos errantes pássaros perdidos do bando na hora de emigrar"
Margarida Morgado, Água Pródiga, 2007 (Associ’ Arte, Évora)
Quando se chega a um patamar de subdesenvolvimento das ideias, como aquele a que se chegou na nossa democracia, deve-se questionaro papel da oposição, ou seja, daqueles que não estão no poder.
Estes, deviam estaratentos a todo o tipo de tropelias que vão ocorrendo no palco liberal dos nossos costumes.
Mas no fundo no fundo, a que espectáculo assistimos?
A oposição, independentemente da sua postura ideológica, constitui um nicho muito variado de tendências, e inclui os partidos que não estão no poder que subvertem quase sempre a verdade política; a comunicação social que anda a soldo de interesses particulares; intelectuais em nome individual frustrados porque ninguém os ouve; intelectuais que se acoplam a uma qualquer nomenclatura fazendo-se ouvir em nome da dita; o papel dúbio da igreja em matéria social, que, ora evoca a doutrina social, ora revela o seu lado mais inquisitorial; finalmente o povo que vota.
Nesta mescla de famintosnão existe uma cultura de civismo, que favoreça a nossa democracia.
E então é ver os governantes na suaprática de promoção pessoal mandando às urtigas os interesses dessa civilidade, negando a planificação neste país e acrescentando o preconceito político/partidário e a incompetência, em marcha para o abismo perante a passividade de todos nós.