domingo, 18 de julho de 2010

TEMOS MESTRES




Um destes dias, dei comigo a dizer que sou por natureza…mas rectifiquei : preferi pensar que me tornei uma pessoa mais ou menos sorumbática, que sorri pouco mas que gosta de o fazer quando encontra razões para isso.
Poderia atribuir as culpas a algum deficit de realização pessoal, ou mesmo sentimental mas não. Sei que ninguém é inteiramente feliz .
Ingiro as vitaminas e proteínas necessárias e nem sequer me queixo de fraqueza nas pernas, o que, se por um lado é vantajoso, por outro seria preocupante relativamente ao meu estado de espírito ambulante.
Eis senão quando, fazendo apelo à minha fragilizada capacidade de análise relativa a alguns comportamentos que preferi denominar : «sociais, políticos, económicos, etc,» (qual Kafka) e porque me estava a sentir mal com algumas coisas que ia ouvindo e vendo por aí, resolvi recorrer a Fernando Pessoa e através do Livro do Desassossego, encontrar algum conforto neste meu incómodo.
Fiquei compensado relativamente àquilo que considerava ser a minha endiabrada deformação psico/formativa, quando às tantas leio que: «Viver é ser outro» ou «sentir hoje o que se sentiu ontem não é sentir…» e que «…isto e só isto, vale a pena ser ou ter, para ser ou ter o que imperfeitamente somos.»
Confesso que se havia algum contencioso entre mim e mim, a coisa ficou parcialmente resolvida, tanto mais que, aceitando eu que o Livro do Desassossego , sendo a obra completa mais incompleta do universo, afirmando a dúvida e a hesitação como dois absurdos pilares-mestres do mundo, só me caberia serenar o espírito e tentar compreender aquilo que eu considerava ser uma enorme confusão, por parte de governantes, religiosos, empresários, trabalhadores, chefes de família, mulheres e homens deste país em particular, excluindo os marginais claro está.
Afinal estamos todos em Portugal, a usufruir da parte minimalista da obra que intencionalmente criamos como absurda, sem consequências de qualquer natureza, para ninguém.
Confesso que ainda não me tinha apercebido de que era possível continuar a viver sendo outro. E felicito-me por me ter apercebido de tal, apesar da inspiração retardada e apoiada em testemunhos pré-vivenciais de alguém que ainda permanece vivo na nossa cultura e nas nossas vidas. Refiro-me a Fernando Pessoa obviamente.
Ele está vivo. Como vivas são as medidas tomadas pelos nossos governantes e aceites pelos nossos governados. Porque é esta a verdadeira natureza humana, que complexifica para preceder à des-complexificação, pensa para des-pensar, age para des-agir, ama para des-amar,e é aí que encontra o Nirvana , enquanto estado de libertação do sofrimento, sofrendo.
Abençoado Pessoa, sem bênção que lhe chegue, por ser infindável a obra, contida num livro completo por in-completar.

sábado, 29 de maio de 2010

A PALAVRA DADA....


Pessoais e intransmissíveis são as palavras que se proferem com o objectivo de não serem ouvidas. Isto faz todo o sentido na medida em que se dá à palavra, uma importância quase profética, (na qualidade de coisa desconhecida para o comum dos mortais)ou então porque se pretende que essa palavra, seja portadora de uma missão clandestina, visando servir interesses corporativos e como tal restritos.
Enquanto os profetas (antigos e actuais) foram ou vão utilizando a palavra, evocando apocalipses e como tal, a destruição da espécie humana pela sua não obediência a dogmas pré-estabelecidos, alguns homens e mulheres foram descobrindo o efeito da utilização espontânea e livre da palavra, que inicialmente como um queixume, depois como intervenção no seu quotidiano, lhes foram conferindo um sentimento de liberdade de que jamais quiseram abdicar.
Estamos assim, perante a palavra dita, ouvida e sentida, sendo que esta última, independentemente de quem a profere é a que maior efeito produz: porque liberta quem a diz; evoca e convoca sentimentos; alegra ou entristece quem a ouve; comove ou revolta quem a partilha.
Finalmente, a palavra sentida, transforma-se em canto, em oração, em clamor, amor ou rejeição, num acto quase solene em que se apadrinha a paixão.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

SEGUE A ESPIRAL


Ferido, evoco a história em espiral, repetindo como os cientistas repetem, que a mesma não se repete, convencendo-me de que virão novas palavras, novos gestos e que o resultado obtido ontem não será igual ao de hoje, será diferente, melhor, ou radicalmente melhor.
Com optimismo, como os cientistas que são optimistas, navego à bolina, contra o vento, contra o tempo, em silêncio, porque alguém entenderá um dia, pelos meus actos, que não precisarei de falar, nesta labuta de construir a felicidade dos outros e a minha se possível . Como os cientistas que pensam primeiro nos outros, antes de pensar em si, quase sempre em silêncio, à bolina, porque a história não se repete e amanhã será melhor, muito melhor.
Como posso assim revelar-me?Só pelos meus gestos o poderei fazer, se alguém os entender.
Que a felicidade circunde sempre a tua vontade e a acompanhe.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

MÊS DE MARIA ou outro


Aclamai…Aclamai…
Porque é aí que o sorriso, se transforma em lágrimas,
Que liberta do vício da condenação,
Consentido, alimentado ou metamorfoseado
No solo da ignorância ou na douta existência

Colocai em dúvida a vossa Fé.
Testai a vossa emoção e de quem a evoca em nós,
Partilhai mesmo com alguém a normalidade dos sentidos,
Mas perante a natureza das coisas
Convocai a vossa simplicidade
Não a razão dos outros
E vereis que Aclamais por vós.

terça-feira, 16 de março de 2010

ESTRANHAR O SOL


Estranho é sentir-se estranho
Porque
Se estranha o bem que se faz
Alegra pelo mal que se fez
Elogia o querer sem crer
Mente sem saber que ser
Pensa sem acreditar
Prefere esquecer

segunda-feira, 8 de março de 2010

MULHER, ÉS FLOR?...


-Olhe pai…uma flor…
-Sim filho, é primavera…
-E o que é a primavera?
-São dias em que alguns homens choram quando pisam uma flor como esta, meu filho…
-E a flor morre?
-Sim…morre se o homem a pisar com muita força.
-E se for eu a pisar a flor, ela também morre, pai?
-Não filho, porque tu ainda não és um homem.
-Pai…quando for homem, posso experimentar pisar uma flor?…

domingo, 28 de fevereiro de 2010

ELOGIO TOTALITÁRIO


Relendo algo, deparei-me com uma frase que Jean Paul Sartre terá proferido, contextualizando-se assim o seu significado:
«Nunca fomos tão livres como durante a ocupação alemã»

Importou-me a frase na medida do aborrecimento que estava a ser para mim, dar uma aula subordinada ao velho tema da confrontação entre regimes totalitários e regimes democráticos.

Sempre, durante todo o tempo em que tive que focar este tipo de matéria, me debati com a necessidade de aproximação a alguma transcendência, aplicada a mim e aos meus alunos, por considerar que limitar tal tema à exígua análise histórica seria uma grande seca.

Assim, eu que até considerava a Sociologia uma ciência auxiliar da História, vejo-me forçado a ir beber a Max Weber e a R. Boudon o elixir da serenidade, quando deste último leio esta maravilha: «A acção de um indivíduo desenvolve-se sempre no interior de um sistema de constrangimentos, mais ou menos claramente definidos, mais ou menos transparentes, mais ou menos rigorosos».

Era a pedra de sal que me faltava neste cozinhado de Verdade da História, que mesmo impregnado de dissertações sobre o Sujeito que também é Objecto e coisa e tal…carecia todavia ainda de uma maior compreensão acerca da individualidade idiossincrática de cada um de nós, mesmo que confrontados com o excesso de rigor liberal, já para não falar da carência de totalitarismo inibidor da nossa criatividade(ironia).

Sendo assim, e sem que este meu espaço seja destinado a manifestações patológicas, deixo no entanto um recado: Não se desculpem com o que podem ou não vir a ser, mas sim com o que já foram, porque passada a tormenta, eis que adquiristes imensa sabedoria e sobretudo fostes livres na vossa acção. Esperemos que sim….

Falei de política, de educação, de desporto? Claramente que não, nem admito conversas dessas neste espaço. (nova ironia)