quarta-feira, 27 de março de 2013

terça-feira, 5 de junho de 2012

POR CÁ VAMOS ANDANDO...


"Uma manhã, ao despertar  de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco insecto"





Recordo esta obra (A Metamorfose de Franz Kafka-1912) como o paradigma da sociedade portuguesa actual. Pelo que contém de sonho, de realidade e de julgamento desses sonhos a favor duma realidade absurda,ou mesmo ingénua.

Um homem português na esperança sombria, de que no dia seguinte acorde homem ainda e que se resigna, quando acordado, ao facto de afinal ter acordado um insecto.
Que cara a aventura de existir, que lucrativa a esperança de apenas viver, submetido ao império dos sentidos que a paternidade impõe.
Que disponibilidade para aceitar a inevitabilidade da mudança em si, para proveito da venturosa vida dos outros.
Que mistério do sofrimento doce, por pouco esforçado, espontâneo e afinal autoritário em si.

Que sublime submissão ao pai que o gerou, como filho da putativa discussão nas assembleias dos bons homens, que se dizem.
Que putativa vida que os pariu, aos homens que pronunciam o nome das coisas, como outros homens e agora também mulheres, querem que elas se chamem…
…As tais palavras proferidas no momento que antecede a metamorfose   

domingo, 20 de maio de 2012

NÃO SOU SEGURO, NEM GOSTO DE COELHO

Felizmente que recuperei este espaço de desabafos, por qualquer erro de manuseamento do teclado.Passou quase um ano sem que conseguisse postar aqui, tanto do que de tão pouco tem acontecido na minha terra e no meu país.
Disse para mim mesmo, que, assim que me fosse possível readquirir este espaço, o faria desoladamente, mas empertigadamente, tais têm sido as desventuras em que o meu país tem andado.
Então cá vai:
NÃO GOSTO DO COELHO NEM DO SEGURO!!!
Pronto!Tá dito.
O que está a acontecer, protagonizado por estes individuos, cheira-me a ranço.
O Coelho não é seguro e o Seguro anda com a mania que é ministro. Este último a apostar diáriamente em revelar as suas aptidões para um cargo que ele pretende ocupar daqui a alguns anos, custe o que custar, numa postura ministerial, agindo e falando como agem e falam ou falavam, antigamente os ministros neste país.
Ambos treinam a imagem, exageram nos formalismos, discursam sem sentido, dizem-se doutores e falam das equipas que lideram, como se o futuro de todos os portugueses, tivesse que passar pela contemplação deles próprios.
Alguem lhes disse que o culto do chefe faz parte da tradição e da memória coletiva deste povo e não conseguem entender que não é a forma que nos interessa mas sim o conteúdo, chamado coragem, sabedoria, competência, mangas arregaçadas e conversa informal mas concreta.
Os jovens precisam de entender o futuro, os mais velhos velhos precisam de contemplar parte do seu passado com orgulho, mas estes indivíduos destroem sonhos e até a própria realidade, vendendo a alma ao diabo, chamado neo-liberalismo sem sentido, orientado por impérios que nada mais têm a provar, atingido que foi o seu patamar de desenvolvimento material.
Falta-lhes o sonho, a imaterialidade que confundem com oportunidades de miséria, porque são incultos, porque não têm pátria, nem nómadas são.
Oxalá o meu blogue não se vá abaixo de novo, porque pretendo viver na demanda do Quinto Império da verdade espiritual em que ao homem compete sonhar, mais do que conquistar.      

terça-feira, 7 de junho de 2011

Cadernos de Hoje: DO GÉNIO (GÉNERO) MASCULINO


Redondos os dias

Estranhas as noites.

Bicudo o homem

Pensando que é dia,

Ao entrar no céu

No sono da noite.

terça-feira, 31 de maio de 2011

A RENDIÇÃO...


Nesse desarranjo Senhor, de vestes tímidas de encharcar em nudez, olhamos-te na procura de ideais ou quimeras que sustentem a nossa/tua vontade.

Criaste-nos assim à tua imagem e por isso te tentamos seguir literalmente, mas apenas te conseguimos ocasionalmente, por a tanto nos teres ensinado e talvez por isso em sinal de compaixão, te redimes? Prostrado apesar de altivo e escangalhado na cruz, como rei que nu se expõe à saciedade como tal, calas-te e deixas que apregoemos a vida como se ela nos pertencesse? Mas ela não nos pertence e tu sabes bem disso, melhor que ninguém…

Não ouves o clamor dos incautos?

Não segues os ais dos pais, dos filhos e dos que não são pais nem filhos e mesmo de espíritos que podendo ser santos como tu, como outros homens têm sido, te esperam venerar por obras que cubram de vestes brancas, símbolo da pureza, a dignidade humana?

Acaso te rendes como aqui és, à impiedade dos sofistas a que chamarei políticos, que te despem impiedosamente, despindo-nos a todos nós, subvertendo a capacidade de em ti acreditarmos?

Acaso remetes a nossa existência para as futuras calendas, em que os idos dias de cada mês se transformem e narrem o restolho humano, cujos cadáveres subjazem como símbolos ou troféus daqueles que te amedrontam assim e submetem, e que a nós nem falar???...

Homem, Senhor, ou mesmo «é pá!...» vê lá onde é que nos meteste e interfere educadamente junto do Pai, como é de tradição fazer, se é que ela ( a tradição) ainda se adequa e deixa-te de merdas, porque isto está a ficar sem condições para que a fé tenha lugar na vida dos homens, conscientes de que só através dela (da fé) poderemos continuar a ser o teu rebanho.

E despacha-te porque as eleições são já a 5 de Junho do corrente…

Obrigado pelo sinal

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Cadernos de Hoje: DO GÉNIO (GÉNERO) FEMININO


Ainda a manhã não era dita

Pelos homens que fazem os dias

Já de tamanho grande era a esperança

Ao acordar, da mulher que se erguia.

Tamancas nos pés de veludo

Olhar no infinito sisudo

Gestos certeiros em tudo,

Vai ao encontro do homem

que faz os dias, confuso.

Debate-se, é doce, que candura…

Até perfeita seria ela, na bruma

Que a envolve na direção do vento,

Se a lua fosse terrena e sua

Se o homem fosse casto e seu

sexta-feira, 22 de abril de 2011

INTERMITÊNCIAS



Normalmente, o professor enquanto docente no ensino público ou privado aplicado aos jovens adopta/adoptava a postura de mestre.Por força da progressiva democratização do Ensino esse papel de mestre tem-se «diluído»…
Essa diluição em grande parte é justificada por aquilo a que chamo o crescimento dos alunos, que nas suas diferentes fases de formação/crescimento, deixam de precisar da rigidez da postura do mestre. Não precisam nem é necessária, porque esse professor passa a estar perante uma pessoa em formação integral. E digo integral, na medida do seu não distanciamento a tudo que acontece fora do recinto escolar.
Direi que tenho sido sempre para os meus alunos, jovens, adultos e para aqueles que estiveram sujeitos aos condicionalismos do sistema prisional, atento à sua disponibilidade para aprender, mas sobretudo para que descubram o espaço da sala de aula, do recinto exterior à sala de aula, do ambiente social, da intervenção cívica etc.
Direi a este respeito, que é com mágoa, que verifico que professores no auge da sua maturidade, quando podem dar mais e melhor à Escola, são confrontados com a necessidade da aposentação, face à desconformidade das condições que permitam a sua continuidade na Escola em condições especiais, estatuto em que me enquadrarei brevemente, mas enfim…
Eis todavia, que há cerca de 3 anos alguém me falou da Universidade Sénior, como espaço de partilha de saberes, promovida pela Fundação Eugénio de Almeida. Fui até lá e inscrevi-me.
Fiz o meu acesso como docente, não sem que o fizesse com algum receio, na medida da expectativa que criei acerca da expectativa que os alunos daquela Universidade teriam sobre o meu tipo de «ensino». A minha proposta foi intencionalmente desajustada dos preceitos da Academia, muitas vezes redutora na sua prática universitária, consequentemente pouco universal. Por outro lado, procuro que seja necessariamente abrangente como um mar de emoções entre pessoas que se diluíssem naquela prática partilhada.
Entrei prosseguindo a minha área de formação, a partir das Ciências Sociais e Humanas, sem que a História, a Geografia, a Filosofia, a Psicologia, a Economia etc, deixassem de ser a alma desse espaço de reflexão, contrariando assim o que erradamente se entende ser a ciência pura aplicada às Ciências Sociais e Humanas, limitada que é muitas vezes, à utilização dos métodos quantitativos.
A prática do Sujeito, naquelas reuniões a que se chamam aulas, em que cada um de nós intervém com a sua experiência, sabedoria empírica ou científica, na descoberta ou confirmação de Verdades que nunca se querem absolutas, tem sido para mim de uma riqueza que não dispensa um aplauso a todos quantos participam nesta actividade .
A sensação com que ficamos, no fim de cada reunião semanal, é a de que tínhamos na ponta da língua tudo aquilo de que falamos durante aquela hora, e que não conseguimos dizer a ninguém, só porque ninguém estava perto de nós, quando quisemos partilhar aquele pensamento.
Afinal, tem sido assim na minha actividade docente fora da Universidade Sénior, com os meus alunos e passou a ser agora com os meus amigos seniores.
A descoberta da Verdade, através de um pequeno empurrão que damos uns aos outros, num acto de enorme solidariedade, que tanta falta faz nos tempos que correm.
Na descoberta dessa Verdade todos somos simultaneamente Sujeito e Objecto sem nunca esquecermos que a generosidade e a gratidão constituem a síntese muitas vezes feita de confronto entre os interesses aparentemente antagónicos.E eis as mentalidades.
Participar com a Universidade Sénior e sua coordenação, com os meus companheiros de «conspiração académica» tem sido para mim um prazer que pretendo continuar e divulgar.
Parabéns a todos

domingo, 27 de março de 2011

Quando o sol se põe...





Tão perto da eternidade lá junto ao sol
Que imagino ser da cor da felicidade
Deboto as emoções na claridade
Colhendo a luz da saudade
De tempos que lá não vivi
E que imagino claros
Como os olhos
Que nunca vi

sábado, 19 de março de 2011

VAMOS A ISTO...







Ligo a televisão depois de jantar porque é meu hábito ouvir notícias do meu país.O país onde nasci.
Depois penso:
Porque a vida que vivemos é preenchida por acontecimentos em que, umas vezes somos Sujeito, outras Objecto, e fazendo até um esforço de modo a relativizar o determinismo politico, que há quem diga, subverte a liberdade dos governados,dou comigo a estranhar algumas das tais notícias que é habitual serem divulgadas nas horas de maior audiência.
Uma delas trouxe-me para o computador a escrever isto e dizia o seguinte:
«O povo português vai ser chamado a votar em Maio ou Junho…»
Independentemente da razão (causa) que justifica a afirmação da jornalista, que me levaria a corromper este meu espaço de reflexão apolítica, se a ela me referisse, prefiro indignar-me apenas, com a frase que coloquei entre parênteses.
Então não é que tenho andado a massacrar a cabeça dos meus alunos com a história dos gregos, do glorioso principio da nossa civilização, da democracia, da filosofia, da história, abordadas no ponto de vista científico, porque de outra forma não faria sentido e de repente, entro na sala, qual Ágora de todos os ensinamentos, onde a televisão assume um papel fulcral e oiço uma coisa daquelas?
«O povo português vai ser chamado a votar em Maio ou Junho…»?????
Então mas afinal não cabe ao povo tal como foi concebido, ainda em tempo de factores condicionantes da democracia, decidir dos destinos da cidade?
Porque surgem estes sofistas/pedagogos/escravos da nomenclatura política, a anunciar que o povo vai ser chamado a votar em Maio ou Junho ??Porque assume a comunicação social esse papel de 2º poder, influenciando tão duramente a opinião pública de maneira a criar nela uma ideia que a vincule a um comportamento?
Se os meios justificam os fins, neste jogo de difícil equilíbrio cívico em que a cidadania é constantemente atraiçoada pela discrepância de métodos, por parte desses parceiros, neste tabuleiro, que se destruam as regras do jogo e partamos todos para a desobediência.
A Objecto nobre da democracia está ameaçado. A clientela do poder perfila-se. O povo chora e sofre. Por mim, não voto, para já…

domingo, 6 de fevereiro de 2011

SEM PALAVRAS


Nem sequer é pela vitamina D que me exponho ao sol nos primeiros dias deste meio inverno.
É apenas porque tenho umas amigas, que, mal saio de casa se me insinuam coloridas e sedentas de mimos, como adivinhando o meu lado vespertino, que é melancólico e ao mesmo tempo empreendedor.
É a hora de todas as decisões: Ao fim de semana, depois de almoço, ou contemplo a natureza ou me integro nela e hoje resolvi antecipar uma jornada que tinha planeada para amanhã e resolvo iniciá-la já hoje.
Pequenas liberdades, que me dou ao luxo de exercer, só para estar com elas, tocar-lhes, ouvi-las nos seus queixumes, que não são falsos, pelo que percebo de resistência aos rigores da minha ausência, quando me sacodem à mínima distracção.
Uma delas, que deixa clara a sua intenção de parir figos mel, lá para Agosto, começa por me dar uma chicotada nas costas com uma das suas hastes que eu pensava ter transposto. São perigosas no verão, dizem, pelo fresco que emanam da abrigada das suas largas e suculentas folhas. Sorrio-lhe e prometo-lhe um desbaste fora de época, como é típico de árvores selvagens aceitar.
Caminho da direcção das laranjeiras, que por entre a ramagem deixam que o sol me encandeie, e aí reconheço um sorriso, que desde a última rega à caldeira me era devido. Algumas laranjas no chão culpam-me de carícias perdidas no tempo e de imediato as recolho aproveitando-as para o sumo da manhã, que elas anunciarão pujantes. embora carregadas de moira geada.
Cedros , pinheiros e eucalipto em terrenos baldios sobrevivem e perfumam arrogantes e altaneiros, na margem do ribeiro de som cristalino, mas nem esses pela persistência da sua ramagem, deixam de avisar sobre as daninhas que ameaçam o seu solo, que preferem castanho e árido por tanta sombra.-Cá virei , digo-lhes, pensando no artefacto mecânico que será meu cúmplice no adorno do seu espaço, por, por elas, ser protegido do fenómeno fotossintético.
A poda das cepas já lá vai, e os primeiros grelos de verdura anunciam que foram agradecidos pelo corte temporão que ainda em Dezembro fiz nos caules ainda tenros. Pedem-me os pequenos troncos rasteiros, que elimine a grama para melhor aproveitamento da terra.Assim farei sem recorrer a químicas e sei que elas agradecem com a uva dona Maria de um lado e a piriquita de outro, como agradeceriam a ausência de micções territoriais do Suão, e do Mouro, cães exibicionistas, ou não fosse a Seara, cadela que da Serra da Estrela veio impor a regra do charme e da teimosia para terras do Alentejo.
A horta, sustenta-se de vedação a precisar de reforço e carece de adubo ou esterco que animal produzisse, se o houvesse. Não sendo essa a vocação da quinta, o adubo em que o azoto e outros ingredientes proliferam, fará a cobertura da terra, passada depois com a fresa longitudinalmente e depois ao contrário, como é de bom saber empírico praticado,resultando.
O sol esconde-se já para lá da Sé.Esta, maior que o único eucalipto da Austrália, de sabor a limão, que por cá dá as boas vindas a quem entra.
A cidade a 2 km, adormece, enquanto o cheiro da sedução das minhas amigas embriaga . Logo mais, a neblina será a recompensa da natureza, pela vida mantida em cumplicidade com o sol, e logo mais com a lua que visitará vigilante umas vezes e provocadora outras, o espaço de tanta vida por nascer.

domingo, 30 de janeiro de 2011

AS PALAVRAS QUE SEMPRE DIREI


As palavras ditas que são as sabidas por aprendidas, são as palavras que dão a conhecer uma forma de mundo através delas.
Enviusado ou não, esse mundo transporta-se com quem assim o interpreta, para o quotidiano de quem aprendeu as palavras assim e para o universo cosmopolita que passa a constituir o espaço de aceitação e negação dessa pessoa.
A partir daí, o radicalismo assume-se muitas vezes como a afirmação ou escolha dessa pessoa, junto das comunidades estruturadas a partir de valores sociais estabelecidos ao longo de séculos.Quem assim age, considera muitas vezes inconscientemente, que essa forma extremada de conduzir a relação de si com os outros é a mais valorada sem ser a mais valorizada. As premissas com que parte, para enviusar o percurso nesse mundo globalmente educado, são minoritariamente perceptíveis, por serem estranhas ao comum dos homens e das mulheres.
É frequente considerarem-se esses radicais, como os detentores de palavras sem significado, talvez loucos, quando afinal e muito frequentemente, estão apenas a tentar integrar-se no espaço da normalidade, utilizando os meios que possuem, ou seja, as palavras que lhes foi possível conhecer.
Desde os tempos imemoriais, que a comunicação foi um meio de valorização, partilha, conflito, aceitação e negação das condições que permitiram e permitem a vida em comunidade. Não se conhece que de alguma forma essa comunicação tenha sido possível através da acção marginal sobre a (apesar de tudo complexa) teia de equilíbrios que sustentam a nossa histórica cumplicidade enquanto espécie.
Não direi, para que não resulte como antiquado tal raciocínio, que cabe às instituições de Ensino, valorizar ou instrumentalizar os meios de aprendizagem das palavras, divulgando-as ou repetindo-as até à exaustão, para que o fim a que se destinam seja atingido.
A prática da utilização das palavras deveria ser permanente, útil, divertida, enviusada até, desde que a sustentabilidade de qualquer comportamento fosse atingida e entendida.
Sem que a homens e mulheres seja negado o direito ao contraditório, que os deuses se assumam como dirigentes da humanidade.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

CARMINA BURANA e a minha cidade...







Como a Idade Média também foi resistência, prazeres carnais, encenações de monges coléricos de desejo e sensibilidade, que nós herdámos…

Assim nos deliciamos até à obscenidade, pela nossa eterna obsessão pelo que inventamos tão frustradamente e até deliciosamente…

domingo, 31 de outubro de 2010

Un jour, un jour

Um dia virá, simples e mansamente





Un jour pourtant, un jour viendra couleur d'orange
Un jour de palme, un jour de feuillages au front
Un jour d'épaule nue où les gens s'aimeront
Un jour comme un oiseau sur la plus haute branche

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

LAMENTO CIGANO







Não sei cultivar esta ânsia de viver,
num universo de emoções escondidas ou por nascer,
quando sei agora que por tanto poder querer,
não sei decifrar quem é quem, nem para quem ser

Refugio-me, sem anseios, ou a aguardar eternamente
Há tanto, tanto tempo quase imortalmente
Obscuro, temporal, quase sentimentalmente
Sem recordar, tão pouco, mesmo fugazmente

Que mal é este, se o é,
e de quem vem?
Tal o meu desencanto
por não ver quem pense
ou ouse assim,
ouvir forte quem tem gestos,
sorrisos escondidos,
que existem e são de bem

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

SUIÇA ASSIM É....

O que me chateou neste Verão, nesta voltinha pela Suiça, nem foram os esplêndidos 22 graus de média, ao sol, recebendo a brisa do lago dos Quatro Cantões em Lugano.




Nem sequer me importei por ver restaurada e florida a ponte da capela e torre da agua em Lucerna





A história dos ursos, como simbolo da capital Berna, e o facto de ter o seu centro histórico classificado pela Unesco, bem como toda a beleza da sua paisagem envolvente também não me chateou nada.




...Até lá fiz umas compras interessantes ao som duma belíssima instrumentista de violoncelo, em espaços comerciais arejados e limpos.



Em Zurique ( o tal sítio) também não me aborreceu minimamente não me ter cruzado com nenhum magnata, porque até me fixei mais no rio Limmat, na belíssima igreja de Santa Maria . etc...mas que existem pessoas de muitas nacionalidades em automóveis de vidros fumados,lá isso existem.Mas, isso não me entristeceu absolutamente nada.


De tal modo estava tranquilo, que resolvemos apanhar o barco que atravessa o lago Thun em Spiez, indo até Interlaken, numa viagem de 1 hora e meia, pelo que aguardámos pelo embarque nesta esplanada, com os Alpes , sempre mas sempre num fraterno abraço.( o senhor da foto não se importou)



Entretanto alguem me tinha falado num comboio panorâmico (Golden Pass) pelo interior da montanha e lá fomos.O percurso foi entre Montreux e a estação de inverno dos Alpes de Gstaad.Aquilo subiu,subiu até deixarmos de ver os cofres fortes cá para baixo,mas viu-se gente que vive em perfeita harmonia com a natureza e isso não me deixou minimamente incomodado.




Nem fiquei surpreendido com a forma organizada da floresta Alpina, com as tabuinhas arrumadinhas, ao lado dos tronquinhos limpinhos extraídos das arvorezinhas em devido tempo...
Nem estranhei nada, não existir por ali resíduos de floresta, nem fogos...achei aquilo tudo muito normal, sinceramente.


Tinha sido um dia intenso aquele,de emoções fortes, para quem vive na planície,pelo que resolvemos descansar numa esplanada, ao fresquinho...até porque o dia tinha sido relativamente quente/húmido.Atirei-me a uma cerveja fresquinha e não querem lá ver, que até nem importei com os 3,50 francos que me pediram pela dita?? A sério...



Annecy.Bom...já França, bem sei, mas...ainda pertence ao território alpino como se pode ver. E teria eu razões para andar chateado?Dirão todos em uníssono: Nãaaaaaaaaaooooooooooo....É claro que não.






Começava a ficar intrigado pelo facto de não me ter chateado um dia só, destes 8 que por terra de um país só, de gente que fala várias linguas, tinha andado...Resolvi entrar numa catedral em Geneve e tentar descobrir o que se passava ali de tão aglutinador, organizado e simples.E encontrei a resposta.Ei-la:
Uma catedral, um altar sem deuses inquisidores e uma cadeira.
O altar vazio de artefactos religiosos, local de encontro de homens e de palavras proferidas por homens , com o testemunho de Deus, sempre presente, mas equidistante
Uma das cadeiras de Calvino, possivelmente magro, para tão curto espaço de meditação, terá também contribuido para tanta grandeza.


Enfim...
O nosso regresso foi na direcção do nosso país.
Um ultimo olhar para a obra de um deus qualquer, que fez um pacto com os homens numa terra de Paz.Beleza.Harmonia.
Esperava-nos no nosso país, notícias de fogos, futebol, políticos não confederados, paisagem moribunda.
Um dia, irei de novo recolher flores à Suiça, junto das pessoas que vivem perto do céu.


sábado, 14 de agosto de 2010

TEXTO LONGO...


As novenas de Maria em Maio decorriam na igreja de S.Sebastião todos os finais de tarde. Acorriam a elas as meninas do bairro, de trança, de franjinha, ou muito bem penteadas. Vestidas de chita ou de algo parecido com seda, levavam nos olhos a dúvida da oração reforçada pelos olhares cúmplices dos seus pacíficos perseguidores.

Os rapazes acotovelavam-se atrás delas, a caminho da igreja, envergonhados das cicatrizes nos joelhos, ajeitando as alças que seguravam os calções, que mesmo assim deixavam sair para fora as franjas das camisolas desalinhadas .

Também eles ingenuamente matreiros, tentavam adivinhar de que lado se iriam posicionar dentro da igreja, de modo a melhor desprenderem um sorriso para a Isabelinha, a Josefa, a Manelinha ou a Inácia. Era uma repartição de afectos feita antecipadamente, por mor das opções ou paixões que cada um dizia alimentar.

O inevitável terço iria começar e a novena seria preenchida pela ladainha das mães, tias, avós, aparentemente desatentos às respeitosas mas insinuadoras aspirações a namoro por parte da miudagem. O cheiro a incenso e um resto de primavera deixada lá fora, misturavam-se no interior da igreja e acompanhava as risadas do pessoal de soquetes, repreendido de imediato após a entrada do padre para ao início das orações.

-A Isabelinha olhou para trás!?...Estava a olhar para ti…-exclamou o gordo Eduardo de olhos muito abertos, armado em alcoviteiro, empurrando e avisando histericamente o Adelino.

Os quatro rapazes entreolharam-se agora mais sérios e apreensivos, procurando entre si e em silêncio, atributos seus que justificassem tal acto e atenção da rapariga da trança. Baralhavam-se as atenções e os afectos e a pressa de atribuir a mais bela ao mais comedido, mas reconhecidamente adaptado a tal beleza, era evidente.Tal era o sofrimento perante tanta beleza…

Em lugar dos sorrisos matreiros, algo desinquietos e atrevidos,os rapazes fixaram-se quedos e mudos, como que apreensivos com a atitude da menina da rua das Rosas nº 4, desconhecendo, embora desconfiando, a quem o sorriso aberto, loiro, assustadoramente angelical seria dirigido.

O gordo entendendo não fazer parte daquela decisão, saiu da Igreja, pé ante pé, ía a ladainha ainda a meio. Cá fora o cheiro das buganvílias embriagava com o seu perfume, que se suponha vir do céu naquela altura do ano e sobretudo quando a cor de fogo surgia para o lado do poente.

Os outros rapazes ainda perceberam o ar trocista e preocupado das raparigas, que mesmo de costas se aperceberam da primeira baixa entre os seus perseguidores, admiradores, proponentes a namorados.

Adivinhava-se nos olhos dos persistentes mas silenciosos conquistadores o falhanço da estratégia naquele fim de tarde: –Porque se rira assim a Isabelinha e para qual deles? Porque se retirou o Eduardo? Embora todos os outros o vissem como o menos provável candidato a qualquer das meninas, que de terço entre as mãos, continuavam nervosamente contando as bolinhas de cada Ave-Maria.

-Malta…-sussurrou o João pelo respeito que tinha ao padre Cristiano-sai um de cada vez e lá fora falamos!...
-Está bem!..-responderam quase em uníssono os restantes-

Primeiro o Adelino, depois o José Luis e finalmente o João, depois de terem ajoelhado em linha recta na direcção do altar ( e do padre Cristiano) e procedendo ao desenho da cruz de Cristo no peito,saíram.

Cá fora nem notaram que o sol se tinha posto e foi com dificuldade que perceberam onde se encontrava o Eduardo. Só o seu choro compulsivo o identificou, sentado com a cabeça entre os joelhos, no meio de ramagens de alfazema e alecrim, que decoravam um pequeno jardim, vocacionado para o perdão, integrado na Igreja de S. Sebastião.

O João rodeado pelos companheiros foi o primeiro a chegar junto do Eduardo e com um joelho no chão colocou-se ao nível do meio abraço com que confortou o amigo, ao mesmo tempo que em conjunto lhes saltou a pergunta:

-Gordo…porque é que estás a chorar?
-Eu disse que a Isabelinha estava a olhar para o Adelino e ele nem me disse nada….-o rapaz, quase parecia entrar em convulsões tal era a emoção que colocava no choro-

Rápidamente, cada um dos amigos do Eduardo encontrou uma justificação que servisse de atenuação da sua dor, enigmática, estranha e incompreensível para todos, que com semblante carregado procuraram a escadaria que na penumbra os encaminharia até à azinhaga que os conduziria ao rossio e depois a suas casas.

Ía a descida a meio, quando no cimo quase fronteiriço às escadarias se abriu vagarosamente a enorme porta da igreja de S. Sebastião, interrompendo-se assim a caminhada dos rapazes que iam abraçados ao Eduardo.

Pararam e de olhos muito abertos, em silêncio, sentiram os seus corações a bater mais depressa, ao ritmo da intensidade produzida pelo efeito da luz forte ,amarela,vinda do interior da igreja, misturada com sombras de figuras humanas mais jovens, que progressivamente espalhavam uma atmosfera de apreensão, mas serenidade e paz ao mesmo tempo, ao espaço exterior envolvente, onde o Eduardo, o Adelino , o Joaõ e o José Luis se prostravam espantados, já com as suas faces visíveis iluminadas pela luz do interior da igreja.

Surge então o que todos eles temiam: a imagem assustadoramente bela da Isabelinha, que na dianteira daquela luz, trazia um sorriso na sua direcção, como que, se de um sonho se tratasse.

A Isabelinha descendo devagar os primeiros degraus daquela escadaria, ladeada pelas amigas, dirigiu-se com a suavidade dos anjos, ao grupo de rapazes com o Eduardo no meio deles e com um sorriso que eles nunca conseguiram definir dirigiu-se ao gordo.
E com a ternura que só um anjo consegue demonstrar, acariciou-lhe a face dizendo-lhe:-Eduardo, nunca mais chores, senão nunca mais me riu para ti na Igreja…

Retira-se de seguida, deixando o rasto daquele contagiante sorriso, que por angélico, mantinha os quatro amigos sérios e quase amedrontados .Ficou ainda o seu eterno olhar, difícil de entender, ao separar-se dos rapazes que entonteceu com um agradecimento, que mais não quis dizer que:-Adeus…

Manteve-se em silêncio seguida das suas amigas.

As faces do rapazes, passados uns segundos, iluminaram-se com um franco sorriso, de novo matreiro, de novo ladino e ingenuamente audaz, ao mesmo tempo que as raparigas desciam finalmente as escadarias, cúmplices, juntas, adiando a risota que só mais ao largo do rossio deixariam ouvir.

Os mais velhos, sobretudo as mulheres, aconchegando os xailes para as noites frias de Maio, caminhavam seguindo a garotada, Tinham ficado para trás a contemplar o gesto de ternura , inédito e inesperado da pequena Isabel, e abanando as cabeças com sorrisos de censura fingida, lá levavam mais um caso para casa, dos muitos casos que em silêncio aquela comunidade experienciava, crentes quando a dor a tanto obrigava, genuínos na esperança de poder amar eternamente.

domingo, 25 de julho de 2010

BULLING??...


...E quando chegados da escola os rapazes descalçavam as botas cardadas, para no rossio se travarem de energias e chutos na trapeira enquanto ao longe a mãe chamava a criação com o peculiar: 'pita...pita...pita....», com a malga de farelos, urtigas e casca de melancia triturada na mão...
Ultrapassada a hora do banho do pai chegado da oficina, os rapazes ainda ofegantes dirigiam-se para o quintal onde uma bacia de água os refrescava da jogatina,terminada entre bostas de vacas do Jimbrinhas,torinas de raça, vindas do chafariz.
Solene o posicionamento do chefe de família à mesa, e expectantes em silêncio todos os filhos,aguardando a qual deles caberia nessa noite, a sorte de ir beber um garoto «lá acima» ao café, de mão dada com o pai, só até que falasse na televisão o João Villaret...
A mãe aguardava «à fresca»,já recolhido o resto da prole, a chegada dos passeantes vindos da cidade,com sorrisos,roupa da cama a cheirar a lavado,pobres, nobres, orgulhosos da sua resistência em prol da honra de se ser devedor à terra, de tudo o que a terra lhes ía devendo...

domingo, 18 de julho de 2010

TEMOS MESTRES




Um destes dias, dei comigo a dizer que sou por natureza…mas rectifiquei : preferi pensar que me tornei uma pessoa mais ou menos sorumbática, que sorri pouco mas que gosta de o fazer quando encontra razões para isso.
Poderia atribuir as culpas a algum deficit de realização pessoal, ou mesmo sentimental mas não. Sei que ninguém é inteiramente feliz .
Ingiro as vitaminas e proteínas necessárias e nem sequer me queixo de fraqueza nas pernas, o que, se por um lado é vantajoso, por outro seria preocupante relativamente ao meu estado de espírito ambulante.
Eis senão quando, fazendo apelo à minha fragilizada capacidade de análise relativa a alguns comportamentos que preferi denominar : «sociais, políticos, económicos, etc,» (qual Kafka) e porque me estava a sentir mal com algumas coisas que ia ouvindo e vendo por aí, resolvi recorrer a Fernando Pessoa e através do Livro do Desassossego, encontrar algum conforto neste meu incómodo.
Fiquei compensado relativamente àquilo que considerava ser a minha endiabrada deformação psico/formativa, quando às tantas leio que: «Viver é ser outro» ou «sentir hoje o que se sentiu ontem não é sentir…» e que «…isto e só isto, vale a pena ser ou ter, para ser ou ter o que imperfeitamente somos.»
Confesso que se havia algum contencioso entre mim e mim, a coisa ficou parcialmente resolvida, tanto mais que, aceitando eu que o Livro do Desassossego , sendo a obra completa mais incompleta do universo, afirmando a dúvida e a hesitação como dois absurdos pilares-mestres do mundo, só me caberia serenar o espírito e tentar compreender aquilo que eu considerava ser uma enorme confusão, por parte de governantes, religiosos, empresários, trabalhadores, chefes de família, mulheres e homens deste país em particular, excluindo os marginais claro está.
Afinal estamos todos em Portugal, a usufruir da parte minimalista da obra que intencionalmente criamos como absurda, sem consequências de qualquer natureza, para ninguém.
Confesso que ainda não me tinha apercebido de que era possível continuar a viver sendo outro. E felicito-me por me ter apercebido de tal, apesar da inspiração retardada e apoiada em testemunhos pré-vivenciais de alguém que ainda permanece vivo na nossa cultura e nas nossas vidas. Refiro-me a Fernando Pessoa obviamente.
Ele está vivo. Como vivas são as medidas tomadas pelos nossos governantes e aceites pelos nossos governados. Porque é esta a verdadeira natureza humana, que complexifica para preceder à des-complexificação, pensa para des-pensar, age para des-agir, ama para des-amar,e é aí que encontra o Nirvana , enquanto estado de libertação do sofrimento, sofrendo.
Abençoado Pessoa, sem bênção que lhe chegue, por ser infindável a obra, contida num livro completo por in-completar.