sábado, 29 de novembro de 2008

CAMPINHO E CAMINHOS DO ALENTEJO


Quantas vezes as palavras de hoje nos servem o engenho, quando o engenho ontem obrigou à construção das palavras…

O Ti Chico Guerra natural da aldeia do Campinho, observa hoje o Alqueva a seus pés. Foi a partir daí que começou a registar as suas memórias, tal como as sentiu. Tinha 80 anos no ano de 2000 tal como diz:


«Estemos No ano 2000

E eu já tenho 80 anos de edade

E já conheço o Campinho

Desdo tempo da Mucidade»

«...outros para em cargados da picuaria para Nigócios de compra evenda, com sultando com us mo ura is, outras para chefis da cumição, tinham de resolver toudos zus publemas da comprativa tinham de Reprezentar toudas zascontas da conprativa, dos pagamentos dus trabalhado ris tinham muinta Responsablidade, os zagrarios eram Muintos, Não avia Rispeito, uns criam as coisas duma Maneira ioutras criam doutra, era priciso aver Muinta paciença para sufrer tanta ideia, o jenaral vaco gonçalvis decretou a lei da reforma agrária Foi Muinto Mali orientada, só cirviu para prantar em ódio urrico com opóbri, sencerem culpados nem uns nem outros, oculpado Foi o jeneral vascu Gonçalves, deu orde os trabalhadoris de ocuparem essas grandes propriedades aus seus donos, para furmarem conprativas, Foi um erro Muinto grandi qui ovi em Portugal, em 1979, começaram os senhorios a tomarem conta das suas propriadadis, dos seus Rabanhos de gado e das suas alfaias ide tudo doqui pertencia agricultura, de tudo do que os trabalhadoris tinham ocupado do quistava drento das propriadades, iFizeram um em ventario de tudo quanto avia drento das propriadades paros agrarios irem pagando os senhorios, Mas os agrarios Nuca eram capasis de pagar eça divda eantão os sinhorios tumaram conta de tudo do quiera delis ios agrários Não criam em tregar tudo do quiera dos senhorios, abeim, iantãu ia GNR Falar com os agrarios qui tinham de entregar tudo do quiera dos senhorios, os agrários so ficaram com oquitinham amentado ios agrários dividiram ecis lucrus por toudos, ias conprativas a cabaram, avia grandis erdadis que Foram dispropiadas purque Não tinham erdeiros lijitimos, porque os donus Não tinham Filhos...» (*)

(*) Agradecimentos ao Ti Chico Guerra e ao amigo Luis Fonseca, Presidente da Junta de Freguesia do Campinho


quinta-feira, 20 de novembro de 2008

O PODER DAS PALAVRAS

Não se entende a penumbra em que se vive, por serem de sol as tardes que tardam sempre: Porque aqui e ali, surgem mensageiros dos dias de outras cores, por serem ornamentados para esse efeito.

Não porque saibam que tão pouco os dias existem, mas sim porque se encontram no limbo da esperança dos outros.

Envoltos em panos de ornamento sagrado falam e falam. Surgem para que se aceitem fardados de poder, porque todos aceitam o poder e sobretudo se o poder surgir envolto

em panos de ornamento sagrado.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

RESISTIR


Como se acreditar bastasse e não se existisse

Ou a verdade fosse verdade e não mentisse

Fossem as crianças herdeiras de consequências

Dos que educam, servos de terríveis evidências


O perfeito entendimento e a perfeita razão

Na substância de cada um, contra a coerção

Faz da criatura servil e nascida obediente

A síntese da vida heróica, tornada consciente

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

«I HAD A DREAM»


O silêncio adensa-se com o aproximar da noite.

Inicia-se o processo de adormecimento ou de despertar para a revisão das ocorrências do dia, que durante o dia não foram ocorrências que se pudessem pensar.

A progressiva densidade do silêncio que só se inicia à noite, tolhe-nos de escuridão e submete-nos pela incapacidade de sermos lúcidos no acto de olhar ao que verdadeiramente fomos ou somos.

Porque o olhar é estranhamente omisso quanto à percepção dos reais acontecimentos, por subverter o sentido, que não a forma das coisas, das coisas invisíveis, essas sim, as verdadeiras coisas que nos abrangem, é que a noite é magnânime e simultaneamente assustadora.

Ela revela-nos finalmente.

Transporta-nos para o rigor da independência, do acto de contrição, de exaltação ou regozijo pelos feitos físicos amestrados de que fomos os principais protagonistas, de que fomos servil e inexoravelmente cobaias ou heróis.

Resta-nos o encantador lado místico da noite, onde o escuro é inspirador e terno.

«Yes, We Can...»

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

É TÃO SIMPLES, PÁ....


Pior do que a crença que se insinua, é não ter crença nenhuma

É mitigar com palavras construídas, o desarranjo de almas sofridas

Castigar com intenções desabridas, orações sem deuses e coloridas

Ficar a lamentar o profano, quando se sente que o desejo é insano


…como se a alma que sente e faz, não fosse vida, instinto e paz…

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

EXCELSO FRUTO


Linda a mulher,

na incerteza da sua beleza

Envolta em mantos

de diáfana claridade

Um dia transforma-se,

dá à luz o desejo dos dias

de intensa claridade.

Sendo eterna na inocência,

acredita na candura

dos seus gestos,

Vai tocando as vidas

que medita, na dor,

na ternura e na desdita

Porque é forte

Abençoada

Bendita

sábado, 18 de outubro de 2008

UM JORNAL À SOMBRA


O jornal da minha terra é uma delícia.
O jornal da minha terra é um jornal esforçado e persiste nesse esforço, sobretudo quando não tem notícias que mereçam relevo.
Assino-o há muitos anos, porque existe também em mim aquele conformismo típico das pessoas que se adornam de simpatia pelas coisas da terra, mesmo que sintam necessidade de comentar com algum desamor, a inoperância das coisas e a ausência de ideias.
A minha terra tem 50 000 habitantes, poucos como se vê, sobretudo para uma cidade conotada com a universalidade da cultura, mas onde o espírito gregário tem muito que se diga…. Propõe-se na minha terra, inconscientemente até, a normalidade dos comportamentos sem que tão pouco se descortine, alguma intenção menos ética ou mais moral.
O jornal da minha terra existe com esse fim também. Existe e subsiste, procurando com a ternura que o caracteriza, a substância, que consiste numa aparente resistência a todas as tendências que muito deliciosamente, se insinuem
A substância do jornal da minha terra, evidencia-se na folha da necrologia, nos anúncios domésticos, no futebol regional, em muita publicidade e num ou noutro destaque
internacional, que pode vir de Moscovo ou do Bangladesh. Todavia, mesmo por cima, ou ao lado, poderá surgir o queixume de um cidadão mais atento, que chama a atenção para as pedras da calçada arrancadas na rua da Misericórdia, ou ao ruído que os jovens universitários eventualmente provoquem depois da meia-noite.
Ali surge por inércia em relação à mudança dos tempos e forte dinâmica quanto à idiossincrasia de um povo que assim o aceita, tudo o que um jornal não deve ser, pelo que representa de inutilidade, num espaço de cultura como é a minha cidade.